Jogos históricos

Em 1984, cabeçada de Mark Hateley encerrou longo jejum do Milan no dérbi contra a Inter



A década de 2010 não foi o primeiro longo período de vacas magras a tirar os torcedores do Milan do sério. Os rubro-negros mais veteranos passaram por um verdadeiro perrengue no início dos anos 1980, quando o Diavolo passou de um scudetto na última temporada do ídolo Gianni Rivera diretamente para o seu primeiro rebaixamento, que acabaria sucedido por um novo descenso. Somente em meados de 1984 é que os milanistas começaram a vislumbrar uma luz no fim do túnel. E isso se deve a um golaço do atacante Mark Hateley.

Até construir seu caminho para a redenção, o Milan teve uma profunda decadência. Se o ano de 1979 foi glorioso para o clube, que conquistou seu décimo scudetto e pode colocar uma estrela no peito, 1980 virou a tabela de cabeça para baixo. Os rossoneri não chegaram a sentir falta do aposentado Rivera e concluíram a Serie A na terceira posição, mas isso de nada adiantou. Enrico Albertosi e Giorgio Morini foram identificados como membros de um esquema de apostas ilegais e, por causa do envolvimento de seus jogadores no escândalo Totonero, o Diavolo foi rebaixado para a Serie B.

Entre 1980 e 1983, o time rossonero da Lombardia se comportou como um ioiô. Caiu para a segundona e retornou para a Serie A; foi rebaixado em campo e, novamente, voltou para a elite após repetir a conquista do título na B. Nesse período, uma geração de pratas da casa comandada pelo veterano Aldo Maldera e pelos já experientes Franco Baresi e Fulvio Collovati (este, até 1982) emergiu: ganharam espaço os defensores Filippo Galli, Andrea Icardi e Sergio Battistini, o meio-campista Alberigo Evani e o atacante Giuseppe Incocciati. Eles compunham a espinha dorsal de elencos que contavam com poucos nomes importantes do cenário local e alguns estrangeiros.

Em 1984-85, após garantir sua permanência na Serie A, o Milan buscava a estabilidade e o brilho de outrora. A situação econômica não era das melhores e a gestão perdulária do presidente Giussy Farina decerto não ajudava, mas mesmo assim o clube agiu muito bem na janela de transferências. Primeiro, foi buscar um antigo ídolo na Roma: o técnico Nils Liedholm, que fora o comandante na campanha do scudetto de 1979 e vinha de título italiano e vice europeu pelos giallorossi. O diretor esportivo Silvano Ramaccioni também adquiriu atletas experientes, como o goleiro Giuliano Terraneo, os volantes Agostino Di Bartolomei e Ray Wilkins e o atacante Pietro Paolo Virdis. A cereja do bolo foi o promissor centroavante Mark Hateley, de 22 anos.

No clássico de outubro de 1984, craques como Baresi e Rummenigge ficaram frente a frente (imago/Buzzi)

Sob o comando da lenda sueca, o Milan teve um excelente início de temporada: ficou invicto em seus 11 primeiros compromissos, sendo cinco pela fase de grupos da Coppa Italia e seis pela Serie A. O ataque ia de vento em popa, uma vez que Virdis já havia feito dois gols e Hateley, quatro – até Di Bartolomei marcou o seu, fazendo a lei do ex aparecer em vitória contra a Roma. Na sétima rodada do Campeonato Italiano, o Diavolo teria pela frente a Inter, com a qual estava empatada na terceira colocação, com oito pontos.

O Derby della Madonnina não trazia bons presságios para o Milan naquele momento, já que os rossoneri viviam um incômodo jejum contra a sua arquirrival. A sua última vitória no clássico havia acontecido em novembro de 1978, por 1 a 0, graças a um gol de Maldera. Nos seis anos subsequentes, os times de Milão se enfrentaram nove vezes, período em que foram registrados três empates e seis triunfos da Beneamata.

Além de conservarem a vantagem no confronto, os nerazzurri também tinham um elenco superior ao dos rossoneri. O grupo da Inter contava com nomes como Walter Zenga, Giuseppe Bergomi, Giuseppe Baresi, Riccardo Ferri, Andrea Mandorlini, Graziano Bini, Gianpiero Marini, Antonio Sabato, Liam Brady, Franco Causio, Alessandro Altobelli e Karl-Heinz Rummenigge, além dos ex-milanistas Collovati e Giancarlo Pasinato. Ilario Castagner, que foi campeão da Serie B pelos rossoneri e trabalhou com o diretor Ramaccioni tanto no Milan quanto no “Perugia dos milagres”, era o comandante da equipe. A Beneamata vivia boa fase na temporada: tinha oito vitórias, cinco empates e apenas uma derrota em 14 partidas.

Hoje, o clima entre as torcidas de Milão é de uma rivalidade civilizada. Nos anos 1980, contudo, não era bem assim. Antes do clássico, organizadas brigaram no entorno de San Siro e, já dentro do estádio lotado, alguns rossoneri exibiram um porco vestido com a camisa da Inter, no intuito de provocar os adversários. A animosidade, porém, ficou fora do gramado e os times deram um espetáculo para os presentes. Inclusive, com pouco mais de 79.500 torcedores, a partida registrou o recorde de arrecadação da época, com uma renda de cerca de 1,26 bilhão de velhas liras.

Hateley incomodou a defesa da Inter principalmente em jogadas aéreas (Guerin Sportivo)

Os dois times foram a campo espelhados, numa adaptação de um dos sistemas mais célebres do futebol italiano, que estava em voga naqueles anos – a chamada zona mista. Tanto Inter quanto Milan tinham um líbero, três defensores, quatro homens de meio-campo e dois atacantes, sendo um deles mais fixo na área. Nesse jogo de iguais, foram os nerazzurri que saíram na frente, logo aos 10 minutos, após uma grande ação de seu principal craque. Rummenigge recebeu de Brady na ponta esquerda, superou Battistini com uma jogada individual e, chegando à linha de fundo, cruzou com perfeição para Altobelli mandar para as redes, de cabeça.

Rummenigge funcionava como o grande vetor de jogo para a Inter e levava vantagem constante sobre Battistini, que era dúvida para o duelo. O zagueiro estava machucado e chegou a receber uma infiltração de procaína no tornozelo para ir a campo, mas Liedholm preferiu sacá-lo ainda na etapa inicial. Seu substituto era Icardi, que além de estar 100% fisicamente, era mais dinâmico e ofensivo. Essa mexida acabou por segurar o panzer alemão, que precisava ficar mais atento com o rival.

O Milan viria a empatar ainda no primeiro tempo, já com participação de Hateley. O inglês recebeu a bola de costas para o gol, arrastou Collovati e o Baresi interista para fora da área, e recuou para o compatriota Wilkins. O camisa 8 rossonero percebeu que os nerazzurri estavam em desvantagem numérica perto da marca do pênalti e efetuou um cruzamento perfeito nas costas de Bini, justo no setor em que Vinicio Verza e Virdis estavam. O segundo citado só escorou para Di Bartolomei, que vinha de trás, atacando o espaço sem ser importunado: o ex-romanista completou sem deixar a pelota cair e deixou tudo igual, aos 33 minutos.

Antes de o primeiro tempo acabar, a Inter teve uma nova chance com Rummenigge, mas Terraneo estava atento e não se deixou vencer pelo desvio na defesa. No intervalo, Liedholm só conversou com seus jogadores e fez mudanças de postura fundamentais. O Milan voltou para a etapa complementar com um meio-campo mais compacto e marcação mais agressiva, o que faria a diferença para o resultado final.

Hateley subiu mais do que Collovati e fez um gol que entrou para a história (FourFourTwo)

Aos 63 minutos, o gol antológico de Hateley foi fruto desse trabalho tático feito por Liedholm. Já no lance que antecedeu ao tento, o inglês ganhou de Collovati e, ao completar lançamento de Baresi, obrigou Zenga a fazer boa defesa. Na sequência da jogada, a Inter tentou trocar passes pelo lado esquerdo do campo, mas o eterno capitão rossonero rapidamente reagiu para desarmar Altobelli. Virdis ficou com a posse de bola e aproveitou o fato de a retaguarda nerazzurra estar bagunçada para cruzar na área. Hateley saltou com larga vantagem sobre seu marcador, antigo dono da braçadeira milanista, e anotou um dos tentos mais famosos do clássico – relembrado numa coreografia da torcida rubro-negra, em 2016.

A Inter não soube administrar sua vantagem nem foi capaz de chegar ao empate. Sabato teve duas grandes ocasiões, ambas de cabeça, mas parou em grande defesa de Terraneo, na primeira delas; na segunda, ainda que desmarcado, isolou. O Milan, muito bem treinado pelo seu ídolo sueco, acabou merecendo a vitória pelo segundo tempo que realizou, no qual superou largamente um time mais forte no papel.

Os rossoneri ainda voltariam a levar a melhor sobre a rival nas semifinais da Coppa Italia, quando se classificaram por um placar agregado de 3 a 2, graças a uma vitória por 2 a 1 na ida e um empate por 1 a 1 na volta. O Diavolo foi vice-campeão da competição e ficou com o quinto posto na Serie A, dois pontos atrás da Inter, terceira colocada. A atípica temporada 1984-85 teve o Verona como campeão e o Torino como vice.

Ainda que o Milan não tenha reencontrado os títulos naquela campanha, o gol de Hateley e o fim do jejum ante a Inter representaram uma injeção de ânimo para os anos seguintes. O atacante nascido – vejam só – na cidade de Derby, na Inglaterra, acabou sendo o rosto da esperança de dias melhores, que viriam a partir de 1986, quando a compra do clube por Silvio Berlusconi acabaria por completar o processo de retomada do gigante rubro-negro. Já sem Hateley e Wilkins, que tiveram de ceder seu lugar na cota de estrangeiros para Ruud Gullit e Marco van Basten, o Diavolo viria a ganhar tudo com Arrigo Sacchi e Fabio Capello.

Milan 2-1 Inter

Milan: Terraneo; F. Baresi; Battistini (Icardi), Galli, Tassotti; Wilkins, Di Bartolomei, Evani, Verza; Virdis, Hateley. Técnico: Nils Liedholm.
Inter:
Zenga; Bini; Bergomi, Collovati, G. Baresi; Causio (Pasinato), Mandorlini, Brady, Sabato; Altobelli, Rummenigge. Técnico: Ilario Castagner.
Gols: Di Bartolomei (33′) e Hateley (63′); Altobelli (10′).
Árbitro: Paolo Bergamo (Itália)
Local e data: San Siro, Milão (Itália), em 28 de outubro de 1984.



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