Cartolas

Ernesto Pellegrini construiu Inter recordista, com Giovanni Trapattoni e legião alemã

Na década de 1980, a Inter passava por um período de reformulação para tentar fazer frente à Juventus de Michel Platini, ao Napoli de Diego Maradona e, já no seu fim, ao Milan de Marco van Basten, Frank Rijkaard e Ruud Gullit. O líder por trás desse projeto de reconstrução nerazzurra foi Ernesto Pellegrini, empresário do ramo de catering, que em 1984 assumiu a presidência do clube e traduziu seu empenho nas grandes contratações que levaram a Beneamata a frequentarem novamente o grupo das favoritas e que renderam à equipe títulos de alta prateleira em uma época de muita competitividade no futebol italiano.

Filho de verdureiros de Milão, Ernesto nasceu em dezembro de 1940 e cresceu entre o campo, nos arredores da capital da Lombardia, e os seus subúrbios. Desde criança jogava bola nas quadras de bairro e tinha o futebol como uma paixão: era torcedor doente da Inter, mas o fato de não ter muita habilidade com a pelota lhe fez um admirador do esporte sem que, no entanto, desenvolvesse o desejo de se tornar um atleta.

Ernesto focou nos estudos e obteve a formação em contabilidade no Instituto Verri, de Milão. Iniciou sua vida profissional como contador da empresa alimentícia Bianchi, onde recebia um salário de 50 mil liras – que usava principalmente para ajudar a mãe a manter a casa no bairro de Morsenchio, próximo ao aeroporto de Linate. Mal sabia o jovem Pellegrini que a trajetória no ramo contábil lhe traria a oportunidade de gerir o seu time do coração décadas depois.

Em cenário italianíssimo, Pellegrini apresenta o craque Rummenigge ao lado de Willi Hoffmann, presidente do Bayern (imago)

A formação de um pensamento filantropo

Em alguns anos de trabalho na Bianchi, Ernesto alcançou o cargo de contador-chefe e gerente do serviço de abastecimento de comida preparada para restaurantes, hospitais, festas e outros espaços – serviço conhecido como catering. Em 1965 fundou a Organização de Cantinas Pellegrini, bastante embalado pelo boom econômico da década. A Itália experimentou um forte impulso industrial por conta dos recursos destinados pelo Plano Marshall e também por políticas de investimento estrutural em ferrovias, rodovias, programas habitacionais e desenvolvimento urbano – implementadas pela Democracia Cristã em coligação com o Partido Socialista Italiano. Naquela época, o PIB do país crescia em uma média anual de 5%.

Embora Pellegrini estivesse embalado em sua organização empresarial, não saía da sua cabeça um fato acontecido tempos antes, que lhe mostrava o quanto o crescimento econômico não se dava de maneira igualitária em seu país – muito pelo contrário. Na casa de sua família em Morsenchio, teve uma infância marcada pela pobreza e pela vida difícil no terreno em que seus genitores plantavam hortaliças no subúrbio de Milão. Como um filho do período da Segunda Guerra Mundial e do posterior ao conflito, viveu períodos de escassez. Era comum ver conterrâneos em situação de fome, vizinhos roubando lenha do seu sítio para se aquecer no inverno e furtando verduras para se alimentarem.

Ernesto e seu irmão Giordano foram criados pela sua mãe com a ajuda de Ruben, um caseiro que ainda costumava trabalhar no plantio das hortaliças e brincar com os meninos no tempo livre. Segundo o empresário, o faz-tudo “dormia numa cama de palha no estábulo, ao lado de três pregos que serviam como cabides, e tinha dois ‘grandes amigos’: a garrafa de vinho, que esvaziava no restaurante onde ia aos domingos depois da Santa Missa, e os livros”.

Foi na década de 1960 que aquele bairro foi varrido pelo concreto da urbanização e a casa foi desapropriada: removida, a família recebeu da prefeitura de Milão um apartamento. Ruben ficou desempregado e sem ter onde viver, enquanto o jovem e órfão contador que destinava o salário para ajudar a mãe ficou sem ter como ajudar o trabalhador que prestou serviços à sua linhagem por três gerações.

Um tempo depois, Pellegrini abriu o jornal em um dia de rigoroso inverno e leu a notícia: “Morador de rua congelado até a morte”. Era Ruben, vítima da desigualdade – que marcaria para sempre a personalidade do futuro presidente da Inter. Após alguns anos, ele prosperaria como magnata com sua empresa, mas jamais esqueceria que sua posição de destaque estava longe de ser a realidade social da maioria dos cidadãos italianos.

Naqueles anos, o milanês decidiu que em algum momento faria algo para tentar amenizar a situação de desigualdade que o rodeava, pela qual ele chegara a passar na infância. A sua tristeza se percebia nas falas públicas sobre o velho companheiro: “certamente era um trabalhador honesto, vítima da crise da época”. Decerto se reconheceu no trabalhador rural: o destino de Ruben também poderia ter sido o seu.

A principal guinada na gestão de Pellegrini se deu com a contratação de Trapattoni (Arquivo/Inter)

A presidência da Inter

A escalada empresarial do milanês foi meteórica. Em 1965, ele foi um dos principais fundadores da Associação Nacional dos Gestores de Cantinas e depois se tornou seu primeiro presidente; posteriormente, na década de 1970, fundou o Grupo Pellegrini, uma verdadeira rede de fornecimento alimentar, e a Pellegrini Catering Overseas, para trabalhar junto a firmas italianas instaladas em outros países. Em 1982, constituiu a Central Food, aumentando a distribuição de comida para as redes de restaurantes.

Com a ascensão no ramo alimentício, a incursão no mundo do futebol de tornou mais fácil e Ernesto se tornou vice-presidente da Inter antes de comprar definitivamente o clube, em 1984, pela cifra de sete bilhões de velhas liras. Em março daquele ano, Pellegrini substituiu Ivanoe Fraizzoli, cuja gestão vinha sendo contestada por não levar a equipe a disputar a Serie A em alto nível (o último título tinha sido conquistado em 1980) e também por não conseguir triunfos continentais: os mais recentes datavam da presidência de Angelo Moratti, encerrada em 1968.

Pellegrini assumiu com essa dupla missão: faturar o maior título nacional e fazer da Beneamata campeã de um dos três torneios europeus que eram realizados na época. Sem dúvidas, o primeiro passo foi dado ainda na temporada 1984-85, com a espetacular contratação, por cerca de 8,5 bilhões de liras, de Karl-Heinz Rummenigge, campeão europeu com a seleção da Alemanha Ocidental em 1980 e vice da Copa do Mundo de 1982, além de vencedor de duas Copas dos Campeões e uma Copa Intercontinental pelo Bayern Munique. O Panzer, como era conhecido em referência aos tanques de guerra alemães, já era um craque mundial consagrado e levou para a Inter sua classe e habilidade, sendo responsável por dar à torcida a confiança de que dias melhores chegariam.

A Inter agora também tinha o seu astro e o talento do germânico somou-se ao qualificado elenco que contava com Walter Zenga, Fulvio Collovati, Giuseppe Bergomi, Giuseppe Baresi, Gianpiero Marini e Alessandro Altobelli, além de outras novas e boas contratações: o meio-campista irlandês Liam Brady e o ponta Franco Causio. Não à toa, aquele time fez boas campanhas, chegando à semifinal da Copa Uefa, quando foi derrotado pelo Real Madrid, e terminando a Serie A em terceiro lugar, apenas cinco pontos atrás do Verona.

A temporada 1985-86 foi mais complicada e a Inter quase ficou de fora da zona de classificação para a Copa Uefa ao final do Campeonato Italiano. No torneio europeu, novamente foi eliminada pelos blancos de Madrid, na mesma fase de semifinais. A jornada de 1986-87 ficou marcada como a última de Rummenigge com a camisa nerazzurra e como a primeira do técnico vencedor Giovanni Trapattoni – e também do craque Daniel Passarella. A Beneamata fez mais uma boa campanha na Serie A, mas novamente não conseguiu ir além da terceira colocação.

Após temporada de recordes, Pellegrini levanta a Supercopa Italiana, em 1989 (Arquivo/Inter)

A gestão Pellegrini já durava três temporadas e o presidente começava a se incomodar com o jejum de títulos, que se tornava maior a cada ano que passava. Com a saída do Panzer, que conseguiu a idolatria da torcida apesar da falta de taças, o cartola procurou reforçar o setor de ataque e repatriou o eficiente centroavante Aldo Serena a pedido de Trap, que buscava soluções ofensivas para o time. Em 1987-88, a Beneamata teria novamente uma trajetória sem troféus levantados, mas a história seria diferente no campeonato seguinte.

Em 1988-89, Pellegrini fez aquilo que o tornou um gestor idolatrado pela torcida nerazzurra: investiu pesado na contratação de mais dois alemães, que seriam cruciais para as conquistas que viriam. Foram adquiridos o forte lateral-esquerdo Andreas Brehme e o potente meio-campista Lothar Matthäus, além do ótimo meia Nicola Berti. Também chegaram à Pinetina o centroavante Ramón Díaz e o ala pela direita Alessandro Bianchi. Juntos, os cinco excelentes reforços somavam cerca de 19 bilhões de liras investidas.

Com mais opções de elenco, a Velha Raposa que estava no comando do time montou o seu forte 3-5-2, com uma goleadora dupla de ataque formada por Díaz e Serena, municiada pela forte capacidade criativa de Berti e, principalmente, pela genialidade de Matthäus – que também fazia os seus gols, mesmo atuando simultaneamente com preocupações defensivas, o que demonstrava o exemplo de técnica e força física do “todocampista” germânico. O trio de meias se completava com Gianfranco Matteoli como regista.

A defesa tinha Zenga no gol, Andrea Mandorlini como líbero – adaptado à função por Trapattoni – e ainda contava com Bergomi e Riccardo Ferri. Nas laterais, Brehme era dono do flanco esquerdo, aliando forte poder de marcação a frequentes subidas ao ataque e assistências para os centroavantes. Na direita, Bianchi atuava praticamente como um ponta por aquele setor. Diferentemente do que muitas vezes se pensa, Trap não jogou apenas em função do catenaccio, mas sim com um esquema bastante equilibrado e com bons dotes ofensivos, como seria demonstrado também pelos números da campanha interista.

Pellegrini na sala de troféus nerazzurra: em sua gestão, a Beneamata conquistou quatro títulos (Arquivo/Inter)

O Italiano daquela temporada chegou ao fim com um título avassalador da Inter, que foi campeã com incríveis 11 pontos de vantagem sobre o Napoli, vice, e batendo uma série de marcas históricas – por isso, aquela conquista ficou conhecida como o scudetto dos recordes. Dentre eles, a Beneamata se tornou a equipe que mais pontuou na história do certame com 18 participantes, na época em que as vitórias valiam dois pontos, com 58 pontos e um aproveitamento que beirou o absurdo (85%). O time nerazzurro também foi o que mais venceu e menos perdeu, bem como o que teve o melhor ataque (67 gols marcados) e a melhor defesa (19 sofridos). Serena, com 22 tentos, ainda foi o artilheiro da competição.

A torcida interista comemorou o título de maneira especial, encerrando uma fila de longos nove anos com uma porção de recordes. Um dos que mais comemorou, até pela concretização do seu projeto, foi Pellegrini, que via o investimento nas contratações implicar em resultados positivos. O auge foi simbolizado pelo recebimento da honraria de Cavalheiro do Trabalho, concedida na Itália a cidadãos de destaque na indústria, comércio e outros serviços de relevância nacional. O próximo passo deveria ser a obtenção de uma taça continental, que tinha um jejum ainda maior a ser superado.

A temporada 1989-90 chegou com a confiança de que seria feita uma boa campanha na Liga dos Campeões. Expectativa reforçada por uma grande contratação: Jürgen Klinsmann, que tinha em seu currículo ótimas exibições pelo Stuttgart, vice-campeão da Copa Uefa. Estava completo o trio alemão-ocidental que deu ares de lenda a uma Inter que já apresentava um louvável futebol. Entretanto, o time acabou eliminado na primeira fase do torneio europeu e ficou com a quarta colocação do certame nacional. Quem saiu ganhando mesmo foi a Alemanha Ocidental, que se aproveitou do entrosamento do trio nerazzurro e venceu a Copa do Mundo de 1990.

A espetacular apoteose viria mesmo em 1990-91, quando o clube foi campeão da Copa Uefa em cima da Roma, vencendo a partida de ida por 2 a 0, com gols de Matthäus e Berti, tornando irrelevante a derrota pelo placar mínimo na volta. Depois de 26 anos, a Inter voltava finalmente a levantar um troféu de uma competição europeia.

Terminava ali o ciclo de Trapattoni no clube, mas continuava o do presidente Pellegrini, que faria ainda a Inter ser bicampeã da Copa Uefa, em 1994 – a Beneamata obteve duas vitórias por 1 a 0 sobre o Salzburg. Àquela altura, o time já estava bastante renovado, tendo como nomes de destaque os atacantes Dennis Bergkamp e Rubén Sosa, além dos remanescentes Zenga, Bergomi, Ferri e Berti. Em fevereiro de 1995, Ernesto vendeu as ações da agremiação para Massimo Moratti, que iniciaria nova gestão, e deixou a Pinetina pela porta da frente.

Em 1995, Pellegrini deixou um clube vencedor para Massimo Moratti administrar (Gazzetta dello Sport)

A vida após o futebol

Depois de sua saída da presidência, Ernesto Pellegrini passou a se dedicar mais de perto aos seus empreendimentos, expandindo sua rede de atuação para o ramo de serviços de limpeza, em 1996, e trabalhando com previdência corporativa a partir de 2015. Em 2019, a soma das receitas de seus conglomerados foi de cerca de 635 milhões de euros, segundo balanços publicados oficialmente.

Apesar do sucesso comercial, sem dúvida, o grande destaque da atuação do ex-presidente nerazzurro no ramo alimentício é o seu engajamento em ações de solidariedade que atendem pessoas em situação de vulnerabilidade. Em dezembro de 2013, o empresário criou a Fundação Ernesto Pellegrini, com o objetivo de destinar verbas para projetos de auxílio a cidadãos abaixo da linha da pobreza e com dificuldades econômicas e sociais.

Com o dinheiro da organização não governamental, Ernesto impulsionou a abertura do Restaurante Ruben, que foi batizado em memória ao trabalhador rural que tanto ajudara sua família na infância e tinha sido vítima da desigualdade social. Localizado em Milão, o empreendimento serve cerca de 500 refeições por dia, vendidas ao valor simbólico de 1 euro, e também conta com a Associação de Voluntários de Ruben – um programa que oferta emprego para pessoas desamparadas e destina recursos para garantir abrigo para crianças de rua.

Pellegrini, um incontestável vencedor nerazzurro, sem dúvidas entende que seu legado social é ainda mais gigantesco, como demonstrou ao falar do restaurante para o jornal Il Giorno, de Milão, em março de 2020. “Todas as manhãs, quando chego na empresa, passo pelo Ruben e penso nas pessoas que a crise colocou no meio do caminho: o nosso restaurante solidário nunca deixou de ajudar os pobres. […] Não pude auxiliar o Ruben, mas sempre tive vontade de fazer algo para o próximo”, afirmou. Entre a abertura do local, em novembro de 2014, até o primeiro mês da pandemia de covid-19, Ernesto serviu 329 mil pratos e ampliou a capacidade de 300 a 500 lugares. Durante a emergência sanitária, a sua cozinha passou a atender cerca de 20 municípios lombardos com o envio de refeições.

O lugar que ganhou no Hall da Fama da Inter, em 2020, tem um significado para além dos títulos conquistados em campo durante sua presidência e passa pela preocupação do simpático octogenário em forjar algo pela melhora de seu país. Pellegrini resume sua enorme trajetória em uma frase. “Eu vivo para fazer o bem, a fé me ajuda”.

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