Cartolas

Ivanoe Fraizzoli dedicou vida à Inter e ainda foi presidente do clube por mais de uma década

Assumir a presidência de um grande clube após o período mais glorioso de sua história não é tarefa fácil para ninguém. Ivanoe Fraizzoli teve a coragem de encarar este desafio na Inter e, ainda que não tenha sido tão vitorioso quanto seu antecessor, é relembrado por ter sido o segundo mais longevo máximo dirigente da agremiação, com 16 anos no cargo.

Ivanoe Vittorio Fraizzoli nasceu em 1916, na cidade de Milão, enquanto seu pai estava no front de batalha da Primeira Guerra Mundial. Dentre as diversas cartas escritas por Leonardo à sua amada Giuseppina, uma dizia respeito ao nome da nova criança: Vittorio, se fosse homem, ou Vittoria se fosse mulher. A mãe concordou, mas quando foi registrar o recém-nascido decidiu também homenagear um amigo próximo, que havia perdido seu filho. O menino se chamava Ivan, mas, para evitar a conotação política que um nome russo teria naquela época, já que a Rússia atravessava momento social que culminaria na Revolução Bolchevique, em 1917, a genitora escolheu Ivanoe como prenome.

O pai de Ivanoe teve um papel importante para o seu futuro como uma pessoa influente na sociedade milanesa. Ao retornar do conflito, Leonardo encontrou trabalho como escriturário na União Cooperativa, que ficava na região central de Milão. Após uns anos no ofício, decidiu sair do cargo. Mas ele tinha um plano: com ajuda de alguns amigos, abriu, em 1923, a Fábrica de Uniformes Civis Italianos, que ficava perto da Basílica de Santo Ambrósio. A empreitada teve sucesso e, em seguida, foi fundada a Manufatura Fraizzoli.

Nessa época, Ivanoe ainda era um jovem, mas completamente apaixonado pela Inter. Ou melhor, pela Ambrosiana: na época, por ordem da ditadura fascista, todos os estrangeirismos tiveram de ser abolidos na Itália e a agremiação foi obrigada a mudar de nome. Em 1931, o garoto se tornou sócio do clube. A emissão daquela carteirinha acabaria tendo importância porque Fraizzoli se tornaria o último presidente “ambrosiano” da equipe nerazzurra.

A década de 1940 foi decisiva na vida de Ivanoe. Ele estudava Economia na Universidade Católica do Sagrado Coração quando perdeu seu pai, em janeiro de 1941. Faltando apenas um ano para sua formatura, herdou o conglomerado empresarial da família e se tornou um homem de negócios, ganhando credibilidade em Milão.

Sua companhia fabricava os uniformes dos empregados de outras fábricas e indústrias de figuras influentes da Lombardia, de modo que virou uma referência no ramo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Manufatura Fraizzoli foi obrigada a produzir uniformes militares. Diferentemente de seu pai, que havia recusado encomendas governamentais anos atrás, Ivanoe não teve escolha.

Embora Fraizzoli não fosse dono de um império ou um gênio dos negócios, seu crescimento profissional lhe permitiu frequentar os círculos sociais mais refinados de Milão. E foi em um dos mais famosos bailes da burguesia milanesa que conheceu sua futura esposa, Renata, herdeira de uma linhagem consolidada no ramo da indústria têxtil – a família Prada. A guerra já havia acabado quando, em 6 de outubro de 1945, Ivanoe foi a uma dessas festas e avistou uma belíssima mulher dançando com um vestido verde. Galanteador, a conquistou com charme e passos de valsa.

Ivanoe e Lady Renata formaram o casal mais célebre da história nerazzurra (Arquivo/Inter)

Os dois noivaram e foram juntos a um jogo de futebol pela primeira vez em uma partida da Inter contra o Napoli, em dezembro de 1946. Os visitantes venceram por 3 a 2, num dia de chuva e muito frio, e, por conta de toda a situação, Fraizzoli pensou consigo mesmo: “Ela nunca mais vai ao estádio”. Mas, felizmente, estava enganado. Sua futura esposa e companheira de todos os momentos se associou à agremiação nerazzurra em 1948 e virou frequentadora de San Siro, ao qual compareceu amiúde até mesmo após a morte do marido, em 1999. Além disso, Lady Renata aconselharia Ivanoe a tomar decisões importantes ao longo de sua gestão como presidente.

Com o passar do tempo, Fraizzoli se tornou mais presente na vida interna do clube. Em 1960, foi empossado como diretor na gestão do presidente Angelo Moratti e participou, nos bastidores, da construção da Grande Inter, vitoriosa naquela década. Oito anos depois, Moratti – que sabia os momentos certos de entrar e sair de um negócio – lhe passou o comando da agremiação nerazzurra.

Fraizzoli, sem dúvidas, ficou honrado em comandar o seu time de infância e aceitou de peito aberto o desafio, que era enorme. Afinal, a gestão de Moratti era a mais bem-sucedida que passara pelo clube até aquele momento, e havia alcançado a glória tanto no âmbito nacional quanto no internacional. A Beneamata era um das equipes mais fortes do mundo na época.

O mais humilde dentre os grandes se tornou o 16º presidente da Inter e teve de conviver, cotidianamente, com a sombra do sucesso da gestão anterior em seu ambiente de trabalho. Além disso, Fraizzoli herdou um time que estava precisando de mudanças em seu modo de jogar: muitos nerazzurri estavam entrando em declínio e era preciso fazer uma reformulação na equipe. Com a troca de presidência, terminaram os ciclos do técnico Helenio Herrera e do diretor esportivo Italo Allodi, mas foi só a partir da temporada 1970-71 que as mudanças efetuadas por Ivanoe deram resultado.

Parte dos principais destaques do time campeão permaneceu, para ajudar a nova geração: Giacinto Facchetti, Tarcisio Burgnich, Gianfranco Bedin, Mario Corso, Jair da Costa e Sandro Mazzola seriam os tutores. Contratados, os já experientes Roberto Boninsegna, Mario Bertini e Lido Vieri também auxiliariam na maturação dos ascendentes Ivano Bordon, Mauro Bellugi e Gabriele Oriali. Para comandá-los em 1970-71, o presidente optou por Giovanni Invernizzi, ex-jogador do clube e técnico da equipe sub-19 até a 6ª rodada daquela Serie A. A alternativa caseira foi a forma que Fraizzoli encontrou para solucionar um início de temporada inexpressivo sob a batuta de Heriberto Herrera.

A troca se revelaria uma jogada de mestre do cartola. Invernizzi ajeitou a equipe, resolveu tensões internas e levou a Inter ao 11º scudetto de sua história, que seria o primeiro título da gestão de Fraizzoli. Certamente, o dia 2 de maio de 1971 foi um dos dias mais felizes da vida de Ivanoe: afinal, seu aniversário de 55 anos coincidiu com a goleada por 5 a 0 sobre o Foggia, que determinou matematicamente a conquista do caneco. A comemoração foi dobrada.

Artilheiro daquela edição do campeonato, com 24 gols, Boninsenga foi o grande destaque da Inter. E, tal qual Invernizzi, ele era uma aposta pessoal de Fraizzoli: criado na base da agremiação, o atacante não entrou nos planos de Helenio Herrera e circulou pela Itália até retornar, em 1969, por desejo do cartola. O carinho entre os dois era mútuo.

Em festa da Inter, o casal Fraizzoli confraterniza com Bedin, Mazzola e Burgnich (Arquivo/Inter)

“O presidente me elogiou demais, parecia que eu tinha ganhado o campeonato sozinho… Mas a verdade é que devo tudo a ele. Se voltei à Inter e fiquei sete anos no clube, é por causa de Fraizzoli”, relembrou Bonimba, numa entrevista à Gazzetta dello Sport, logo após a morte de Ivanoe. “Mas mais do que do presidente, me lembro de um ‘pai’, que todos os sábados à tarde ia até nosso centro de treinamentos, acompanhado de dona Renata, para acompanhar a missa com o elenco e conversar com os jogadores”, completou.

Com Boninsegna, a Inter ainda foi vice europeia em 1972, perdendo a decisão da Copa dos Campeões para o Ajax de Johan Cruyff, e cinco vezes seguidas semifinalista da Coppa Italia. Em paralelo, Fraizzoli elaborava um plano de gestão mais moderno, que fosse de encontro às mudanças que o futebol estava tomando. Essas alterações se concretizaram apenas em 1977, após um segundo posto na copa nacional. Mazzola, recém-aposentado, assumiu um cargo na área executiva do clube, e o ex-volante Giancarlo Beltrami, de passado milanista, foi contratado como diretor esportivo.

A partir de 1977-78, os nerazzurri voltariam a sorrir. O time daquela temporada era liderado por Facchetti, último remanescente da Grande Inter, e recheado de pratas da casa: a Bordon e Oriali se juntavam Graziano Bini, Nazzareno Canuti, Giuseppe Baresi e Carlo Muraro. No mercado, Beltrami também pescou o garoto Alessandro Altobelli no Brescia – no ano seguinte, ainda levaria Evaristo Beccalossi, escudeiro do atacante, para a Pinetina. Para comandar esta geração, a diretoria buscou o disciplinador Eugenio Bersellini, que mostrara qualidades por Cesena e Sampdoria.

Fraizzoli conseguiu montar um time que se provou mais competitivo do que o de anos anteriores. O esforço foi recompensado de imediato, com a conquista da Coppa Italia, em 1978. Duas temporadas depois, a Beneamata faturou mais uma Serie A e pode voltar a disputar a Copa dos Campeões: em 1980-81, foi semifinalista do torneio, mas acabou sendo derrotada pelo Real Madrid. Em 1982, a mesma geração, fortalecida pelos pratas da casa Giuseppe Bergomi e Riccardo Ferri, e ainda treinada pelo “sargento de ferro” Bersellini, também ganhou mais uma copa nacional. Esta foi a quarta e última taça da gestão de Ivanoe, que se encerraria em 1984.

Quatro títulos obtidos em 16 anos parece pouco, se pararmos para pensar na tradição que a Inter já tinha no país e na Europa. Contudo, Fraizzoli não era um presidente que saía gastando dinheiro de forma irresponsável, apenas para satisfazer caprichos e fazer o time competir com seus rivais. Fiel a suas convicções econômicas, o cartola nunca cometeu loucuras financeiras para afundar o clube em dívidas e, por outro lado, se voltou às categorias de base: alguns dos maiores ídolos dos nerazzurri foram revelados na Pinetina durante a sua presidência. Mesmo que essa combinação nem sempre resultasse em taças, os dois aspectos citados foram virtudes de seu período à frente da agremiação.

O orçamento não poderia ultrapassar os limites definidos pela gestão e, por isso, Fraizzoli desistiu de adquirir jogadores de qualidade depois de as negociações avançarem e valores anteriormente combinados receberem acréscimos, se tornando exorbitantes – foi assim, por exemplo, com Carlo Ancelotti e Marco Tardelli, que reforçariam rivais. Todavia, houve uma contratação que o presidente não desistiu de tentar: a de Michel Platini.

A tentativa de aquisição do astro francês foi um evento à parte na gestão de Ivanoe. O cartola havia recebido de Artemio Franchi, presidente da Uefa e da Federação Italiana de Futebol – FIGC, a informação de que a reabertura das fronteiras da Itália para a contratação de jogadores estrangeiros deveria ocorrer no verão de 1978 e, então, delegou a Beltrami a tarefa de negociar com Platini, que já havia sido duas vezes premiado como melhor futebolista francês.

Apesar de ter conquistado poucos títulos, Fraizzoli escreveu o nome na história da agremiação por causa de gestão responsável (Arquivo/Inter)

Apesar de problemas de comunicação, o diretor conseguiu fechar com o craque do Nancy, mas as fronteiras não foram reabertas. A Inter, então, voltou suas atenções a outras peças e Platini passou ao Saint-Étienne. Em 1982, o francês acertou com a Juventus e, antes de sacramentar o acordo, procurou os nerazzurri para saber se poderia assinar o contrato. Liberado, brilhou com a camisa da rival, enquanto Hansi Müller, o estrangeiro que fazia a mesma função de Le Roi em Milão, vivia no departamento médico. Questionado sobre o fracasso do alemão, o presidente Fraizzoli se defendeu: “Quem poderia imaginar? Fui informado de que ele estava bem fisicamente”, afirmou.

Ainda em sua gestão, a Inter chegou a apalavrar o reforço do “Rei de Roma”, Paulo Roberto Falcão. Campeão da Serie A e da Coppa Italia pela equipe giallorossa, o brasileiro ficou a um passo de deixar a Cidade Eterna em 1983. Beltrami e Mazzola acertaram as bases do vínculo com o meio-campista, que estava em fim de contrato com a Loba, e Fraizzoli, por cortesia, decidiu ligar para Dino Viola, dono da agremiação adversária, para informá-lo das tratativas.

O presidente da Inter, entretanto, não contava com o fato de que seu homólogo romanista mexeria os pauzinhos nos bastidores da política para que Falcão permanecesse em Roma. Filiado à Democracia Cristã, Viola era próximo a Franco Evangelisti, ex-máximo dirigente giallorosso e braço direito de Giulio Andreotti, figurão do partido que já havia sido primeiro-ministro da Itália cinco vezes até então – no total, ocupou o cargo em sete ocasiões. A saída do craque brasileiro era comentada à boca miúda e preocupava aqueles que orbitavam em torno da DC. Como, por exemplo, o Papa João Paulo II.

A ofensiva da Roma para assegurar a continuidade de Falcão na equipe se deu em duas frentes. Primeiro, foi feito um telefonema para a mãe do jogador, católica fervorosa, para avisá-la que o papa não queria que o seu filho trocasse de clube. O apelo do santo padre levou a genitora do atleta a pressioná-lo para renovar o vínculo. Além disso, Andreotti também ligou para Fraizzoli e, na conversa, deu a entender que um gordo contrato de fornecimento de uniformes que a firma do interista tinha com o governo seria cancelado se as tratativas para a aquisição do meia fossem adiante.

Pressionado pelo centro do poder, Fraizzoli pensou em desistir do negócio, embora tivesse o apoio dos diretores do clube e de sua esposa. A contragosto, Lady Renata também acabou se convencendo de que era melhor não contrariar o mais ardiloso político italiano da época e, então, a Inter abdicou da aquisição de Falcão. Essa decisão mexeu muito com o dirigente, que até chorou por conta da pressão que sofreu por expor seus interesses.

Esse lado mais “sujo” do futebol nunca agradou Fraizzoli, que era visto, como mencionamos anteriormente, como um pai para os jogadores: severo e chato, mas sempre buscando construir relações íntimas e diretas com seus homens. A Inter era a filha que Ivanoe e Renata nunca puderam ter, e o mesmo valia para os atletas. O presidente estava sempre disposto a saber como seus empregados estavam se sentindo e o que faziam enquanto não estavam nas redondezas do clube. Era como se fossem crianças precisando de cuidados.

Homem de valores convictos, Ivanoe vivenciou uma saia justa com o atacante Carlo Muraro: folhetins afirmavam que o jogador, que era noivo, teria um caso com uma famosa atriz. Fraizzoli, ao saber dos rumores, fez o bispo de Milão convocar o ponta para uma conversa que buscasse esclarecer o que estava sendo dito. O nerazzurro relatou ao pároco que tudo não passava de um mal entendido e, só então, o presidente se acalmou.

Romântico do futebol, Fraizzoli vendeu o clube depois que se viu num beco sem saída (Arquivo/Inter)

Toda essa romantização, intimidade e humanidade que Fraizzoli buscava construir no dia a dia do clube foi também o que lhe levou a decidir deixar a presidência. O futebol estava em constante mudança, não só dentro de campo como fora dele. Essas relações mais próximas não faziam parte do ambiente esportivo que estava sendo gerado.

Após a Copa do Mundo na Espanha, Ivanoe se viu atingido em cheio pela revolução causada pela lei 91/1981. Grosso modo, a legislação definia, entre outras medidas, que o atleta profissional era um trabalhador autônomo, o que dava liberdade aos jogadores para negociarem contratos mais vantajosos com o time em que atuavam ou com outras agremiações. Ou seja, a normativa afetava diretamente o mercado de transferências.

O primeiro golpe sofrido na gestão de Fraizzoli foi a perda de Oriali e Bordon. Os dois, sobretudo Lele, eram considerados como afilhados para Ivanoe. Mas os contratos mais rentáveis oferecidos a eles foram decisivos para cortar de vez essa relação lapidada por anos. O volante foi atuar com a camisa da Fiorentina, enquanto o goleiro passou a defender a meta da Sampdoria.

Fraizzoli via aquele futebol apaixonante e romantizado cair diante de seus olhos. Para ele, a Inter era uma paixão muito forte e, acima de tudo, um passatempo. Afinal, seu principal ofício era o de empresário do ramo têxtil. Diante das mudanças ocorridas, Ivanoe revelava-se um cavalheiro de valores antigos e um presidente, até certo ponto, antiquado. Mas era sua paixão em jogo e aquilo estava lhe tirando o sono à noite. Lady Renata, vendo que o marido sofria, lhe aconselhou a vender a agremiação.

O fato é que Fraizzoli já vinha preparando a passagem de bastão havia alguns meses. O próximo presidente seria Ernesto Pellegrini, que, por iniciativa de Ivanoe, já integrava o conselho de administração nerazzurro e uma das vice-presidências da agremiação. A transação, feita sob enorme sigilo e em tempo recorde, foi concluída em 15 de janeiro de 1984, quando o empresário do ramo têxtil fez uma ligação para informar Mazzola e Beltrami sobre sua saída. Os jornais anunciaram a troca na diretoria três dias depois.

“Com o coração não se pode mais administrar empresas. Sempre fiz tudo com o coração, e hoje isso não é mais suficiente. No futebol, você tem que passar por cima de cadáveres. Eu não sou capaz disso Não reconheço mais esse esporte. Sou um homem de outros tempos”, afirmou Fraizzoli, após a sua saída. Na entrevista em que comentou a mudança de ares, o ex-presidente ainda lembrou de citar as transferências de Oriali e Bordon como a gota d’água.

Mesmo longe do comando, Ivanoe e Lady Renata nunca deixaram de acompanhar uma partida sequer da Inter. Na tribuna de honra, eles puderam assistir juntos, até os últimos dias de vida dele, em 1999, aos jogos e conquistas da equipe que tanto amaram – ela, até 2016, quando faleceu. Fraizzoli certamente morreu realizado por conseguir comandar o seu clube do coração e por nunca se perder em suas convicções.

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